Canabidiol (CBD) e a nutrição

Canabidiol (CBD) e a nutrição

O Canabidiol (CBD) é um constituinte da planta Cannabis sativa ou Cannabis indica, extraído do cânhamo, que ao contrário do Δ⁹-tetrahydrocannabinol (THC) não induz efeitos psicóticos.1 O interesse na utilização de CBD como suplemento tem vindo a crescer, dado os seus possíveis efeitos anti-inflamatórios, neuroprotetivos, antipsicóticos, antipilepticos, ansiolíticos, anti tumorais.2 O nosso corpo apresenta um sistema endocanabinoide, com recetores CB1 ou CB2 nas diversas células. 1,2

Os recetores CB1, situam-se, sobretudo, no sistema nervoso central e têm um papel na modulação dos sintomas depressivos, de stress ou na modulação emocional e cognitiva após um stress traumático. 1,2Os recetores CB2 situam-se na periferia das células exercendo expressão no sistema imunológico e no sistema digestivo.2 A ação do CBD neste sistema tem tido maior expressão como antagonista da ativação destes recetores e por ação indireta, como por exemplo, através da sua ligação a recetores da adenosina. 2

O CBD apresenta propriedades como antipsicóticas, nem afeta a frequência cardíaca ou a pressão arterial, porém a evidência demonstra-se inconclusiva face à sua utilização para atenuar os efeitos de THC.1,2

Organização Mundial da Saúde reconhece o uso de CBD para o tratamento de diversas situações patológicas, como por exemplo epilepsia.2

O CBD pode ser comercializado em óleo ou cápsulas ou administrado por via intravenosa ou sublingual.2

Epilepsia

Uma das estratégias nutricionais mais utilizadas no tratamento da epilepsia é o seguimento de uma dieta cetogónica.3,4 Estudos têm vindo a demonstrar a relevância do uso de cannabis na redução da ocorrência de convulsões, melhorias nos padrões de sono, humor e estado de alerta em crianças com epilepsia refratária5

Em 2018 uma revisão sistemática e meta-análise observou que o uso de CBD como tratamento adjuvante, ou seja, em paralelo com o tratamento convencional, em doentes com síndrome de Lennox-Gastaut e síndrome de Dravet (epilepsia mioclónica grave da infância), síndromes nas quais os doentes podem experienciar convulsões, associou-se à redução na frequência das crises, mas aumentou o número de efeitos adversos ( sonolência, diarreia, diminuição do apetite, aumento das aminotransferases).6Mais recentemente, verificou-se que em doses de 10 a 20 mg/kg/dia como terapia adjuvante na Síndrome da Dravet, têm um bom impacto na redução das convulsões, porém a dose deve ser ajustada de acordo com a tolerância.7

Doenças Neurológicas

Uma revisão sistemática e meta-análise de 2019 demonstrou existir evidência no uso de CBD no tratamento da depressão, ansiedade, doença de Alzheimer, Síndrome de Tourette, stress pós-traumático e psicose.8 Na doença de Alzheimer, um dos seus benefícios é a prevenção da apoptose precoce de células neuronais. 9Na doença de Parkinson a suplementação com CBD tem diminuído os estados de psicose e os problemas associados ao sono.9Além da sua ação anti-inflamatória importante para o controlo destas doenças, e na esclerose múltipla o CBD também previne a degeneração neuronal.1

Cancro

Em Portugal, o INFARMED e nos Estados Unidos, o National Cancer Institute, o uso de CBD e THC é permitido para diminuir as náuseas e vómitos, assim como para estimular o apetite em doentes oncológicos.11,12

No que respeita à ação anti-tumoral a maioria dos estudos tem sido feita com THC, porém mete-se como hipótese que o CBD pode ter também esta ação através da sua capacidade em aumentar os radicais livre nas células cancerígenas e, assim, provocar a sua morte diminuindo as metástases.13Autores têm demonstrado a diminuição da progressão de tumores de alguns tipos de cancro, como o cancro da mama.14

O uso de CBD deve ser feito de forma cautelosa, uma vez que pode aumentar a toxicidade ou diminuir a efetividade de alguns tratamentos. 11A maioria da evidência em relação aos sintomas associados ao cancro é de estudos que usam CBD em concomitância com THC.15

Patologias gastrointestinais

O efeito anti-inflamatório do CBD nas doenças inflamatórias gastrointestinais, como a Doença de Crohn tem vindo a ser estudado, porém estudos em humanos não demonstram efeitos significativos.16–18

Desporto

Tem surgido interesse no uso de CBD por atletas devido aos sua ação anti-inflamatória, diminuição da perceção da dor e extinção da memória associada ao medo e ainda aos seus efeitos na diminuição da ansiedade e na recuperação pós-treino.19 Porém o seu consumo deve ser cuidado e a escolha do suplemento também, uma vez que podem existir misturas e as outras substâncias canabinoides são proibidas.19

A situação em Portugal

Pela Lei nº 33/2018 a utilização para fins medicinais de medicamentos, preparações e substâncias à base da planta da canábis foi regulada em Portugal.20 Estas preparações podem apresentar-se como um extrato de óleo, como folhas ou sumidades floridas ou fortificadas da planta. 20 A disponibilização destes produtos no mercado é regulada pela INFARMED e a aquisição destes só é permitida através de prescrição médica e apenas se se verificar que os tratamentos convencionais não estejam a ser efetivos. 20

O Decreto-Lei nº8/2019 de 15 de janeiro, regulamenta a utilização de medicamentos, preparações e substâncias à base da planta da canábis para fins medicinais.21 Por definição, um medicamento à base de planta de canábis só tem como substâncias ativas: 21

– uma ou mais substâncias derivadas da planta da canábis;

– uma ou mais preparações à base da planta da canábis;

– uma ou mais substâncias derivadas da planta da canábis em associação com uma ou mais preparações à base da planta da canábis.

As preparações são obtidas através de várias formas como a extração ou purificação, ou que se apresentem em pó ou óleos essenciais, por exemplo, ao passo que as substâncias carecem de um tratamento específico. 21

Atualmente, a INFARMED aprova o uso de medicamentos à base da planta Canábis (contendo THC e/ou CBD) apenaspara situações patológicas como: 12

– Espasticidade associada à esclerose múltipla ou lesões da espinal medula;

– Estimulação do apetite nos cuidados paliativos de doentes sujeitos a tratamentos oncológicos ou com SIDA;

– Presença de náuseas e vómitos que podem resultar dos tratamentos de quimio e radioterapia ou da terapia combinada de HIV e medicação para hepatite C;

– Dor crónica;

– Síndrome de Gilles de la Tourette;

– Epilepsia e tratamento de transtornos convulsivos graves na infância, tais como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut ou na presença de Glaucoma resistente à terapêutica 

A dosagem para a suplementação com CBD é indicada pelo médico, devendo ser inciada com uma dose mais baixa, sendo depois ajustada consoante a doença, os efeitos obtidos e a possível presença de efeitos secundários. 21

Efeitos secundários

A toma de CBD tem-se demonstrado bem tolerado e seguro, sendo que os seus efeitos secundários estão mais associados à sua interação com outros medicamentos utilizados pelas pessoas a quem é prescrito o tratamento adjuvante com CBD.2

Alguns medicamentos com CBD usados podem ter efeitos secundários como:22

– Sonolência;

-Tonturas;

-Boca seca;

– Comprometimento no normal desenvolvimento da criança;

– Problemas hepáticos com aumento das transaminases no tratamento de indivíduos com epilepsia; 6,7

-Diminuição do apetite, em doentes com epilepsia, uma vez o sistema endocabinoide regula a ingestão alimentar; 6,7,23

– Diarreia, dado que o sistema endocabinoide interfere na motilidade intestinal.23

O uso de medicamentos à base da planta canábis não é aconselhado a grávidas e mulheres que amamentem, pessoas com história clínica de falência hepática, renal ou com doenças cardiovascular, ou pessoas que tomem anti-depressivos ou outos medicamento que ativem o sistema nervoso central, antiepiléticos ou contracetivos hormonais. 12

Artigo escrito por Rafaela Teixeira (2912NE)

Referencias bibliográficas:

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2.       World Health Organization. CANNABIDIOL (CBD) Critical Review Report Expert Committee on Drug Dependence Fortieth Meeting. 2018. 

3.       Martin-Mcgill KJ, Jackson CF, Bresnahan R, Levy RG, Cooper PN. Ketogenic diets for drug-resistant epilepsy. Vol. 2018, Cochrane Database of Systematic Reviews. John Wiley and Sons Ltd; 2018. 

4.       Ziobro J, Eschbach K, Sullivan JE, Knupp KG. Current Treatment Strategies and Future Treatment Options for Dravet Syndrome. Vol. 20, Current Treatment Options in Neurology. Current Science Inc.; 2018. 

5.       Reithmeier D, Tang-Wai R, Seifert B, Lyon AW, Alcorn J, Acton B, et al. The protocol for the Cannabidiol in children with refractory epileptic encephalopathy (CARE-E) study: a phase 1 dosage escalation study. [citado 24 de Abril de 2020]; Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12887-018-1191-y

6.       Lattanzi S, Brigo F, Trinka E, Zaccara G, Cagnetti C, Del Giovane C, et al. Efficacy and Safety of Cannabidiol in Epilepsy: A Systematic Review and Meta-Analysis. Vol. 78, Drugs. Springer International Publishing; 2018. p. 1791–804. 

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12.     Canábis para fins medicinais – INFARMED, I.P. [Internet]. [citado 24 de Abril de 2020]. Disponível em: https://www.infarmed.pt/web/infarmed/canabis-medicinal

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18.     Halbmeijer N, Groeneweg M, De Ridder L. Cannabis, a potential treatment option in pediatric IBD? Still a long way to go. Vol. 12, Expert Review of Clinical Pharmacology. Taylor and Francis Ltd; 2019. p. 355–61. 

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20.     Lei 33/2018, 2018-07-18 – DRE [Internet]. [citado 24 de Abril de 2020]. Disponível em: https://dre.pt/pesquisa/-/search/115712242/details/maximized

21.     Decreto-Lei 8/2019, 2019-01-15 – DRE [Internet]. [citado 24 de Abril de 2020]. Disponível em: https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/117821810/details/maximized

22.     Overview | Cannabis-based medicinal products | Guidance | NICE. 

23.     Chesney E, Oliver D, Green A, Sovi S, Wilson J, Englund A, et al. Adverse effects of cannabidiol: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. Neuropsychopharmacology [Internet]. 2020 [citado 27 de Abril de 2020]; Disponível em: http://www.nature.com/articles/s41386-020-0667-2

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