Vitamina A na recuperação do olfato perdido devido à infeção pelo COVID-19

Vitamina A na recuperação do olfato perdido devido à infeção pelo COVID-19

Um dos sintomas que mais persiste após a infeção pelo COVID-19 é a ausência de olfato, também designado por anosmia, ou a diminuição da sua perceção, levando a desordens. Foi relatado em diversos estudos como um dos primeiros sintomas a aparecer, mas também um dos últimos a desaparecer, sendo que a anosmia ou diminuição da perceção do olfato consegue perdurar por cerca de 6 meses, em média. Como é algo incerto, a recuperação total ou parcial deste sentido tão importante, têm sido estudados diversos tratamentos de forma a melhorar ou recuperar o mesmo (Neta et al., 2021).

A disfunção olfativa pode ser dividida em desordens quantitativas e qualitativas. (Whitcroft e Hummel, 2019).

  • As desordens quantitativas reduzem a habilidade de perceção de odores, sem distorção da sua qualidade. Pode ser subdividida de acordo com a sua severidade:
    • Hiposmia: em que a perceção de estímulos olfativos é reduzida, mas não ausente; 
    • Anosmia em que não existe função residual suficiente para ter qualquer perceção olfativa significativa (Whitcroft e Hummel, 2019).
  • As desordens qualitativas dividem-se em:
    • Parosmia: é a distorção de um estímulo de odor, geralmente para uma qualidade mais desagradável;
    • Fantosmia: é a percepção de um odor (novamente geralmente de qualidade negativa) na ausência de um estímulo (Whitcroft e Hummel, 2019).

O mecanismo envolvido nesta disfunção olfativa causada pelo vírus COVID-19 ainda é incerta, pois não se sabe como é que o vírus causa esta sintomatologia. Investigadores propuseram o facto de o COVID-19 ter a habilidade entrar no cérebro através do sangue, ou de outras formas, causando esta perda de olfato. Outros propõem que o vírus consegue entrar no cérebro através dos nervos olfativos e do nervo trigémeo. (Neta et al., 2021; Whitcroft e Hummel, 2019).

É importante saber mais concretamente porque é que os investigadores estão a investir nesta recuperação de olfato. Para isso basta conhecer como é que esta ausência ou disfunção olfativa impacta na qualidade de quem sofre do mesmo. 

Indivíduos com esta sintomatologia apresentam problemas em cozinhar; uma diminuição do apetite e da higiene pessoal; problemas a nível dos relacionamentos sociais; e problemas emocionais como sensação de insegurança e solidão. É previsível de se perceber que esta disfunção/ ausência pode levar facilmente a distúrbios nutricionais, ansiedade social ou depressão (Addison et al., 2021; Hura et al., 2020; Kanjanaumporn, Aeumjaturapat, Snidvongs, Seresirikachorn & Chusakul, 2020).

O cheiro também tem um papel importante na deteção de alertas de perigos no dia-a-dia, como presença de gás, fumo, comida podre e produtos químicos. (Addison et al., 2021; Hura et al., 2020; Kanjanaumporn, Aeumjaturapat, Snidvongs, Seresirikachorn & Chusakul, 2020). 

Esta persistência de anosmia após a infeção por COVID tem sido estudada, de forma a entender a causa para encontrar a solução. Foi colocada a hipótese em 2020 por Kanjanaumporn et al. que o vírus produz uma reação inflamatória na mucosa nasal ou danifica diretamente o neuroepitélio olfativa, que contribui para a perceção de olfato. Assim sendo, a solução proposta é a reconstrução ou regeneração do que foi danificado.

São diversos os estudos que têm tentado de várias formas conseguir recuperar o olfato, têm sido realizados com diferentes alternativas de recuperação, sendo que uma das opções que têm investigado, e que tem estado presente em praticamente todos é a utilização de vitamina A.

A vitamina A é conhecida pela sua habilidade regenerativa daí a persistência em tentar arranjar a melhor aplicação para conseguir resultados positivos na ajuda da regeneração do neuroepitélio olfativo. A melhor opção proposta até à data foi via intranasal (Addison et al., 2021; Hummel et al., 2017; Kanjanaumporn et al., 2020; Neta et al., 2021; Reden et al, 2012; Whitcroft e Hummel, 2019; Yan et al., 2020a). 

Apesar de alguns estudos terem conseguido resultados positivos através da utilização de gotas de vitamina A, ainda não está garantido que esta possa ser a melhor solução para a recuperação do olfato. Foi concluído que o uso de vitamina A via oral não apresentava resultados promissores, mas a aplicação tópica, através das gotas, pode ser a melhor solução para o tratamento (Addison et al., 2021; Hummel et al., 2017; Kanjanaumporn et al., 2020; Neta et al., 2021; Reden et al, 2012). 

Da pesquisa realizada, são mais os estudos que obtêm resultados positivos com esta linha de tratamento que aqueles que não obtiveram qualquer resultado determinante para chegar a uma conclusão mais clara (Addison et al., 2021; Hummel et al., 2017; Kanjanaumporn et al., 2020; Reden et al, 2012).

Os melhores resultados apresentados para a recuperação do olfato vêm de um tratamento através de um treino olfativo, no entanto, existe um estudo que conjugou a aplicação das gotas de vitamina A com o treino e verificou melhoria, o que pode indicar que provavelmente esta conjugação seja a forma mais eficaz de recuperar o olfato (Hummel et al., 2017; Neta et al., 2021).

Visto que ainda há diversas componentes que podem ser incluídas para conclusões mais precisas, todos os estudos sugerem a continuação da investigação desta via de tratamento para a recuperação do olfato com outras componentes propostas. No entanto, quer sem resultados ou com resultados pouco significativos, a bibliografia não retirou esta hipótese pois acreditam que apenas não conseguiram os resultados esperados pelas diferentes razões que cada estudo apresenta, sendo que não deixam de sugerir um investimento nesta pesquisa de forma mais aprofundada (Addison et al., 2021; Hopkins et al., 2021; Hummel et al., 2017; Hura et al., 2020; Kanjanaumporn et al., 2020; Neta et al., 2021; Reden et al, 2012).

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Artigo escrito por Inês Simões Alves (3671NE), Nutricionista Estagiária na Loveat

Referências bibliográficas

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  • Reden, J., Lill, K., Zahnert, T., Haehner, A., & Hummel, T. (2012). Olfactory function in patients with postinfectious and posttraumatic smell disorders before and after treatment with vitamin A: A double-blind, placebo-controlled, randomized clinical trial. The Laryngoscope, 122(9), 1906–1909. doi:10.1002/lary.23405 

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